23 de abril de 2014

Indiferença velada







Indiferença velada

As convenções sociais perplexam o ambiente quando certas atitudes incomodam um dos integrantes do grupo, principalmente se esse for o anfitrião. Certa feita, numa pequena reunião combinada de última hora, tal feita ocorreu.

Ao chegar a casa, onde tal reunião ocorreria, alguns se encontravam sentados na calçada, cada um com suas particularidades, uns falavam alto, outros riam à gargalhadas enquanto crianças corriam faziam suas graças.

Cumprimentei todos, com certa reserva. Nesse momento o dono da casa veio receber-me e logo mostrou onde eu deveria me sentar como se houvesse uma preocupação com tal detalhe. Cumprimentei sua mãe, que ainda não havia visto, e direcionei-me ao lugar indicado.

Sentei-me e uma sensação estranha de isolamento me acometeu, mas logo quebrada com a chegada de dois amigos que, quase  por decreto, sentaram junto a mim.

As conversas transcorreram normalmente. A certa altura o dono da casa se juntou a nós, com comentários evasivos e respostas monossílabas. Nesse momento recordei-me da “Crônica do sobá” e daquele referido cidadão. As atitudes dos moradores pantaneiros são características e corriqueiras como uma bipolaridade que se compara a uma balança de dois pesos, mas com uma medida.

Ao decorrer do papo, referi-me a esse fato e emiti minha opinião dizendo que havia me acostumado a essa indiferença, mas sem aceitá-la. Todos concordaram e  o anfitrião apenas balançou a cabeça positivamente e isso causou-me um desconforto, como crítico que sou, comecei a refletir sobre o acontecido, mas me contive para não parecer mais um.

Dirigindo meu carro, fazendo meu caminho de volta para casa, os questionamentos borbulharam e fiquei atordoado: “existe alguma obrigação em convidar alguém a um jantar?”, “o que havia acontecido para tal atitude?”. Eu, como sempre, já comecei a pensar que tinha feito algo com a pessoa citada, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Vai entender?

A minha adaptação a esse modo de ser acaba me afetando de forma drástica, pois meu humor e minhas motivações estão à flor da pele e observo que talvez esse seja um dos motivos pelos quais os demais se comportam estranhamente  e ao chamado “efeito dominó”. Será que estou me tornando mais um? Não quero ser assim. Quero ser espontâneo, alegre e comunicativo. Socorro!

Esses fatos corriqueiros inquietam meu ser. Às vezes chego a pensar que estas pessoas estão pedindo ajuda, apesar de não admitirem. Sinto uma vontade imensa de resgatá-los, mas não sou capaz, ou melhor, não estou capaz. Talvez o isolar-se é o refúgio de cada um nessa terra de carências coletivas transformada em indiferenças e taciturnos.


         

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