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16 de dezembro de 2014

Justiça? Quanto tempo?


Justiça? Quanto tempo?

Quanto tempo será necessário para que as pessoas se respeitem? Quanto tempo para que o orgulho e o egoísmo deixem de reinar nas relações? Todos conhecem essas atitudes, porém não as abandonam. Quanto tempo?

Necessário é que todos se conscientizem das mudanças. Tão contraditórias são as manifestações humanas. Ora reivindicam justiças, ora são os próprios injustos. Quanto tempo?

Quanto tempo ainda suportaremos as atrocidades praticadas por multidões e, também, individualmente? Não terá fim? Corrupção, indiferença, naturalidade da contravenção. Quanto tempo?

A era das transformações há de chegar. Sonhar faz parte do espírito humano, algum desses filósofos famosos, ou talvez um teórico, não sei afirmar, mas alguém se expressou dessa forma para conceituar o espírito de mudança inerente ao homem. Quanto tempo ainda haveremos de sonhar?

A realidade é o que queremos para fazer do sonho, o que é realmente é um sonho. Realizar nossas vontades seria o caminho, todavia quais seriam essas vontades? Justiças ou injustiças? Conceitos mudam, se transformam. Quanto tempo ainda?

Existiria uma verdadeira justiça? Os menos favorecidos são condenados muitas vezes sem julgamentos justos, por outro lado, os poderosos, apesar de todas as evidências, se esquivam e a “justiça cega” torna-se cega para a justiça. Quanto tempo?

Quem deveria nos dar o exemplo de justiça, em sua minoria, “claro” (não quero ser condenado), são os que abusam do poder e humilham quem deveriam proteger. Fruto do orgulho e de um poder transitório. Seria por quanto tempo?

Com espanto que vejo em um desses programas denominados “revistas eletrônicas”, de uma TV de grande audiência, a notícia de um juiz da região nordeste do país, que acusado de escravizar e humilhar seus funcionários, em sua fazenda, e além de outros quatro crimes, teve estes arquivados pelo STJ. O mesmo volta à cena com abuso de poder num aeroporto do Brasil. Seria essa a verdadeira “justiça cega”? Quanto tempo mais?

O que esperar, também, de uma população que vai às ruas exigir ações sociais e reelegem os mesmos envolvidos nos escândalos de corrupção? Acho que não é somente a justiça que se apresenta cega. “O povo tem o governo que merece!” Quanto tempo?


23 de abril de 2014

Indiferença velada







Indiferença velada

As convenções sociais perplexam o ambiente quando certas atitudes incomodam um dos integrantes do grupo, principalmente se esse for o anfitrião. Certa feita, numa pequena reunião combinada de última hora, tal feita ocorreu.

Ao chegar a casa, onde tal reunião ocorreria, alguns se encontravam sentados na calçada, cada um com suas particularidades, uns falavam alto, outros riam à gargalhadas enquanto crianças corriam faziam suas graças.

Cumprimentei todos, com certa reserva. Nesse momento o dono da casa veio receber-me e logo mostrou onde eu deveria me sentar como se houvesse uma preocupação com tal detalhe. Cumprimentei sua mãe, que ainda não havia visto, e direcionei-me ao lugar indicado.

Sentei-me e uma sensação estranha de isolamento me acometeu, mas logo quebrada com a chegada de dois amigos que, quase  por decreto, sentaram junto a mim.

As conversas transcorreram normalmente. A certa altura o dono da casa se juntou a nós, com comentários evasivos e respostas monossílabas. Nesse momento recordei-me da “Crônica do sobá” e daquele referido cidadão. As atitudes dos moradores pantaneiros são características e corriqueiras como uma bipolaridade que se compara a uma balança de dois pesos, mas com uma medida.

Ao decorrer do papo, referi-me a esse fato e emiti minha opinião dizendo que havia me acostumado a essa indiferença, mas sem aceitá-la. Todos concordaram e  o anfitrião apenas balançou a cabeça positivamente e isso causou-me um desconforto, como crítico que sou, comecei a refletir sobre o acontecido, mas me contive para não parecer mais um.

Dirigindo meu carro, fazendo meu caminho de volta para casa, os questionamentos borbulharam e fiquei atordoado: “existe alguma obrigação em convidar alguém a um jantar?”, “o que havia acontecido para tal atitude?”. Eu, como sempre, já comecei a pensar que tinha feito algo com a pessoa citada, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Vai entender?

A minha adaptação a esse modo de ser acaba me afetando de forma drástica, pois meu humor e minhas motivações estão à flor da pele e observo que talvez esse seja um dos motivos pelos quais os demais se comportam estranhamente  e ao chamado “efeito dominó”. Será que estou me tornando mais um? Não quero ser assim. Quero ser espontâneo, alegre e comunicativo. Socorro!

Esses fatos corriqueiros inquietam meu ser. Às vezes chego a pensar que estas pessoas estão pedindo ajuda, apesar de não admitirem. Sinto uma vontade imensa de resgatá-los, mas não sou capaz, ou melhor, não estou capaz. Talvez o isolar-se é o refúgio de cada um nessa terra de carências coletivas transformada em indiferenças e taciturnos.


         

5 de abril de 2014

Texto intimista! "Batalhas íntimas"







Batalhas íntimas

A atitude humana surpreende a cada dia, a fragilidade do ser, por egoísmo, reflete no próximo, como uma fuga de seu “eu” e assim criam-se desavenças nos diversos ambientes e situações.

Ás vezes sinto-me assustado com as reações e interpretações de minhas falas e atitudes. O que pensar? Como proceder? “Sei que nada sei”, a fala do poeta vem a minha mente (faz sentido agora). Perder tempo com o que terceiros avaliam sobre mim é uma perda de tempo, pois ambos (eu e eles) somos indivíduos imperfeitos.

Então lamentar e remoer talvez sejam um atraso no caminho a seguir. Peço perdão. Tento dar o próximo passo rumo à alegria, mas sentimentos inferiores continuam a me rondar. O orgulho fala mais alto. Quero libertar-me das amarras da inferioridade, mas turbilhões de sentimentos brigam dentro de mim. Quero vencer! Vou vencer!

Acredito que a necessidade de vivermos em sociedade está pautada exatamente nisto. Os conflitos nos fortalecem após as turbulências. Perdão! Perdão! Perdão! Perdão para você! Perdão para mim! Dê-me o direito de me arrepender. Quero arrepender-me! Vou arrepender-me!

Em certos momentos, tenho a sensação de que nasci em um planeta diferente. Como “um estranho no ninho”. Isso soa semelhante a uma sátira. Sinto-me cansado, mas com muita vontade de vencer. Quero vencer! Vou vencer!

Penso como seria bom admirar e ser admirado por todos, porém seria isso possível? O que me importa é não magoar o meu semelhante e isso me inclui. Quero me arrepender das mágoas. Vou arrepender-me.

Quer saber? Não posso voltar e corrigir meus erros do passado, mas posso fazer um novo começo - desculpe-me Chico se me enganei com suas palavras - farei uma nova história. O começo de uma grande existência. Não ser admirado, mas, sim, dar o exemplo. Só assim conseguirei me arrepender e vencer as batalhas do orgulho e do egoísmo.

            

21 de maio de 2013

Aos meus colegas professores

Respostas desconhecidas

Ao observar situações cotidianas em sala de aula, questões me torturam, mas uma me angustia ainda mais: - Até quando ensinar a quem não tem interesse em aprender? Conversas paralelas, celular, toque, “whats app”, tanta tecnologia! Como ganhar o “round”?

Sou apenas um professor, fui capacitado a transferir conhecimentos. Ninguém me avisou que teria que ser um “artista”. As angústias rondam, mas quem tem as respostas? Quais são elas?

Essas respostas nunca chegam. Pessoas desconversam, enrolam e transferem a responsabilidade novamente para nós professores. E assim o tempo passa e as soluções não aparecem. Alguns dizem serem adaptações individuais a serem feitas. Mas e ai? Isso seria a resposta? Mas quais realmente são elas?

Teorias são criadas a todo o momento, julgam serem detentores das metodologias ideais para preencher a lacuna. Seria a resposta? A sensação que brota em mim e em vários companheiros de angustia: Como pessoas que, em sua maioria, nunca entraram em sala de aula poderiam saber a resposta? Mas qual, necessariamente, seria a resposta?

Educandos, inquietos e entediados, demonstram desmotivação. Outra pergunta: cadê os recursos? Como vencer tecnologias se não as temos? Alunos sem interesses, educadores doentes e necessitados de respostas. Mas qual é, verdadeiramente, a resposta?

Hipocrisia, orgulho e egoísmo, colegas ao não assumirem suas incapacidades fazem gerar as angústias, as dúvidas. E as respostas? Ninguém as tem. Impossível! Ouvi dizer que a palavra “ninguém” como a palavra “todos” têm ideia de generalização, mas como acabar com as dúvidas, depressões, tristezas somadas a uma sensação de incapacidade? Acabamos entrando num sistemas que muitos classificam como: “fingem que ensinam e todos fingem que aprendem”. Será essa a resposta?

Ufa! Parece que as dúvidas aumentaram em minha cabeça após as reflexões. Quero as respostas! Preciso das respostas! Exijo as respostas! "Peraí!" Um momento! Descobri qual a verdadeira e única resposta. Exigir, exigir, exigir. Devemos exigir respeito e começando pelo próximo e quem seria? Nós mesmos e os que compartilham das mesmas ansiedades e sofrimentos. 

Agora sim, surge em mim à sensação que algo poderá ser feito em prol de todos que buscam as respostas. Mas será essa a resposta?


27 de abril de 2013

Um crônica, não tão boa, mas.....


Coragem: a verdadeira sabedoria

Existem momentos e sentimentos inexplicáveis, algo ocorreu em minh’alma – “exagero” – Intuição? Não, intuições dizem ser feminino, mas certo cantor da década de 80 disse: “... ser um homem feminino não fere o meu lado masculino”. Coisas que surgem inesperadamente.

Indignação seria o sentimento. Quanta importância! Até recebeu um artigo lhe definindo. Mas os sentimentos são intensos a quem os sente. Ódio, amor, saudade, simpatia, indignação. Voltemos a ela.

Como toda crônica se caracteriza, essa nasceu de uma observação. Uma cena que provocou em mim a necessidade de se expressar e perpetuar o tema. Não cabe aqui citar nomes, pois posso comprometer-me, além do mais o importante, aqui, é o fato.

A partir desse, passei a questionar o que leva as pessoas a se imporem quanto aos seus ideais ou atitudes. Falta de argumentos? Ficará claro ao fim do relato.

Ao ser advertido quanto ao seu procedimento com relação a um serviço executado, o rapaz, como que num ímpeto de “incorporação” alheia, transfigurou seu semblante e como numa necessidade de agressividade disse: “quando puder eu refaço”. Todos ali demonstraram incômodo pela situação, uns cochichavam com alguém ao lado, outros emudeceram, alguns atentaram ao diálogo. Já eu, abaixei a cabeça e como em oração, refleti sobre o que ali estava ocorrendo.

Por que não admitir erros? Por que não ser mais sereno e corrigí-los para que a harmonia se estabeleça? Errar é natural do ser humano. Os antecessores de Drummond morreram pulando de precipícios ao tentarem voar. Antes da roda se tornar redonda, o homem a fez quadrada. Então por que não sermos sábios e admitirmos os erros?

A cena se prolongou por mais alguns segundos, constrangendo e tornando o ambiente desagradável. Ao questionar algumas pessoas, houve a menção de que este certo cidadão estaria apresentando comportamentos agressivos sem explicação visível.

Agora duas perguntas rondam minha cabeça provocando uma segunda indignação: “por que não admitir os erros e corrigi-los? Por que ao percebermos pedidos de socorro nada fazemos?”.

O ser humano é complexo e entendê-lo é um enigma. Chego à conclusão que o certo está na verdade de cada um. Uma verdade nunca é a mesma do outro.

14 de março de 2013

Texto de Arnaldo Jabor


Crônica do Amor


       Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
       O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
       Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
       Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
       Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
       Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
       Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
        Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
        Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
        Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
        Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
        É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
        Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
        Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
        Não funciona assim. 
        Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
        Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
        Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

26 de outubro de 2012

Terceira crônica

Abraço maternal


  
Fomos informados de que uma campanha havia sido feita no período matutino e que a turma crescera em número de frequentadores: “30” - disse nossa colega. Ainda bem que ganhara aquele abraço.

Olhos desconfiados, certo nervosismo de principiante tomou conta de mim e da turma, mas o veterano e admirado professor incorporou e em menos de 15 minutos, as gargalhadas, as atenções e os questionamentos foram lançados, um a um, de meus novos aprendizes.

Ah! O abraço. Desculpem-me. A professora que faltara semana anterior, por ter um filho acidentado, ao chegar sorriu e abraçou-me com braços maternos, com carinho e doação energética que me fortaleceu ao ministrar minha aula.

Que incrível! – pensei. Nesse momento em que palavras brotam de minhas mãos, observo os 30, sim, os 30 produziam, com dedicação, a atividade proposta, como nunca antes havia observado em outra turma.

Esse fato encheu-me de entusiasmo e esperanças: “Será que finalmente encontrei meus alunos ideais?” – Sinto-me como aquele profissional educador recém formado cheio de ideias e propostas que acreditava mudar o mundo hipócrita.

Mas, mesmo sabendo que isso é utópico, a semente precisa apenas ser plantada e por um instante, talvez otimista demais, a certeza tomou conta de mim: “Hoje semeei novos frutos”.



19 de setembro de 2012

Crônica típica campo-grandense.


O retorno do sobá

Era um show de um artista de renome nacional. Enquanto aguardava o início do espetáculo, sentei-me numa mureta que separava o gramado da parte pavimentada em frente ao palco. Comecei, então, a observar as pessoas ao meu redor.
Um grupo bebia compulsivamente e apresentava uma alegria acompanhada de uma ansiedade que parecia crescer a cada minuto, pois alguém olhava insistentemente o relógio.

Ao longe, um casal, que se beijava calorosamente, demonstrava um isolamento do mundo exterior como se apenas os corpos ali estivessem, mas a alma se via em êxtase de hormônios em ebulição·.

De repente, sentou-se ao meu lado um colega de trabalho que se acomodou de costas demonstrando uma indiferença, era como se nunca houvesse estado comigo. Aquela atitude fez com que o meu humor pulasse ao nível mais alto de irritabilidade: “como pode alguém agir assim?” – pensei indignado e revolto.

“Poderia ser um descuido, ou uma falta de atenção?” Cheguei a pensar, mas ficou claro o olhar meio que de canto de olho em que deixou nítida sua intenção em se tornar invisível.

O show correu dentro da normalidade. Ri, cantei, vibrei, pois era um cantor que admirava e continuo admirando muito. Ao final, já no caminho da minha casa, continuava atormentado pelo comportamento do meu colega.

No outro dia, segunda-feira, ao chegar ao trabalho sabia que iria cruzar o seu caminho. Ele ainda não havia chegado.

Alguns minutos depois, ele entra e diz: “Bom dia mestre!”. Eu mudo, com “cara de paisagem” e de forma fria, sai como se sozinho ali estivesse. “A vingança é um prato que se come frio”.


7 de setembro de 2012

Mais uma crônica.


Onomatopeias

“O povo brasileiro”, expressão pronta e dita por vários políticos em campanhas eleitorais. Venho dizer-lhes o que fazer... O que fazer? Parece que a sociedade conspira contra si. Novela, futebol, Datena, Gugu, Faustão... “Tchu!Tchá!tchá!” e agora um “Encontro”.

A educação onomatopeica presente nas músicas e os poderosos cada vez mais poderosos – “tchu!Tchá!Tchá!” ligo a TV, ouço o rádio – “Ai, ai, ai!” – “tchê! Tchê! Tê, tê. Tê!” o nome de um cantor...?

Livros não fazem parte do “Thu, tchá, tchá” o que fazer? A mídia nos transportou de uma ditadura militar para outra ditadura que não nos permite derrubar o véu da ignorância.

Certa vez alguém me disse o que, hoje, me parece utópico: “A democracia se estabeleceu finalmente no Brasil”. Democracia? Onde há escolhas?

Observo dúvidas e angustias que me assombram: democracia, educação, “tchu, tchá! Tê – rê – rê”, onomatopeias, povo brasileiro. Tantas ideias, mas que para mim, apesar de simples, são pouco compreendidas.

Sou utópico? Sou louco? Radical, talvez? A única certeza existente é que o povo brasileiro precisa mudar seu comportamento, pois se precisamos de mudanças, elas devem partir de cada um: “ai, ai, ai”, “Tchu!Tchá!Tchá!”, “Tê, tê, rê, tê, tê”. Onomatopeias foram criadas quando não havia formas de serem ditas. O povo que não sabe o que dizer.... “tchê , tchu, rê, tê, ai ai ai”...


24 de maio de 2012

Sempre bom Fernando Sabino


Na Escuridão Miserável

Eram sete horas da noite quando entrei no carro, ali no Jardim Botânico. Senti que alguém me observava enquanto punha o motor em movimento. Voltei-me e dei com uns olhos grandes e parados como os de um bicho, a me espiar através do vidro da janela junto ao meio-fio. Eram de uma negrinha mirrada, raquítica, um fiapo de gente encostado ao poste como um animalzinho, não teria mais que uns sete anos. Inclinei-me sobre o banco, abaixando o vidro:
- O que foi, minha filha? - perguntei, naturalmente, pensando tratar-se de esmola.
- Nada não senhor - respondeu-me, a medo, um fio de voz infantil.
- O que é que você está me olhando aí?
- Nada não senhor - repetiu. - Tou esperando o ônibus...
Onde é que você mora?
- Na Praia do Pinto.
- Vou para aquele lado. Quer uma carona?
Ela vacilou, intimidada. Insisti, abrindo a porta:
- Entra aí, que eu te levo.
Acabou entrando, sentou-se na pontinha do banco, e enquanto o carro ganhava velocidade ia olhando duro para a frente, não ousava fazer o menor movimento. Tentei puxar conversa:
- Como é o seu nome?
- Teresa.
- Quantos anos você tem, Teresa?
- Dez.
- E o que estava fazendo ali, tão longe de casa?
- A casa da minha patroa é ali.
- Patroa? Que patroa?
Pela sua resposta, pude entender que trabalhava na casa de uma família no Jardim Botânico: lavava roupa, varria a casa, servia a mesa. Entrava às sete da manhã, saía às oito da noite.
Hoje saí mais cedo. Foi 'jantarado'.
- Você já jantou?
Não. Eu almocei.
- Você não almoça todo dia?
- Quando tem comida pra levar de casa eu almoço: mamãe faz um embrulho de comida pra mim.
- E quando não tem?
- Quando não tem, não tem - e ela até parecia sorrir, me olhando pela primeira vez. Na penumbra do carro, suas feições de criança, esquálidas, encardidas de pobreza, podiam ser as de uma velha. Eu não me continha mais de aflição, pensando nos meus filhos bem nutridos - um engasgo na garganta me afogava no que os homens experimentados chamam de sentimentalismo burguês.
- Mas não te dão comida lá? - perguntei, revoltado.
- Quando eu peço eles dão. Mas descontam no ordenado. Mamãe disse pra eu não pedir.
- E quanto é que você ganha?
Diminuí a marcha, assombrado, quase parei o carro! Ela mencionara uma importância ridícula, uma ninharia, não mais que alguns trocados. Meu impulso era voltar, bater na porta da tal mulher e meter-lhe a mão na cara.
- Como é que você foi parar na casa dessa... foi parar nessa casa? - perguntei ainda, enquanto o carro, ao fim de uma rua do Leblon, se aproximava das vielas da Praia do Pinto. Ela disparou a falar:
- Eu estava na feira com mamãe e então a madame pediu para eu carregar as compras. E aí no outro dia pediu a mamãe pra eu trabalhar na casa dela, então mamãe deixou porque mamãe não pode deixar os filhos todos sozinhos e lá em casa é sete meninos fora dois grandes que já são soldados. Pode parar que é aqui moço, obrigado.
Mal detive o carro, ela abriu a porta e saltou, saiu correndo, perdeu-se logo na escuridão miserável da Praia do Pinto...
 (Fernando Sabino)

11 de maio de 2012

Segunda crônica.


Crônica do sobá


       
Ao passar por um conhecido nos corredores movimentados do shopping local, observo sua inquietação ao me perceber: “cumprimentar? Não cumprimentar?” seus olhos denunciam suas inquietações.

O que há por detrás dessa dificuldade em dizer “oi”, “olá” ou um simples aceno com a cabeça? Quanta inquietação!

Olhar desviado. Uma busca cega em se esconder: ”Quero ser invisível!”, seria o que ouviria se tivesse o dom de ler pensamentos. Talvez fosse necessário uma análise psíquica coletiva anexada aos programas municipais de saúde. Um sorriso brota em minh’alma, acompanhada de uma tristeza preocupante, junto à uma vontade de mudança e incapacidade.

Passos às vezes diminuídos, às vezes apressados. De repente a mesma aflição me domina: será que devo ir até ele e dizer uma palavra de conforto? E se eu for repreendido ou ignorado? Um pavor desponta meio tímido, mas perceptível.

Entrar numa loja? Que tal o banheiro!? Que nada! Decido então seguir em frente normalmente. Ah! Quer saber? Princípios devem ser levados para a vida inteira. Não vou deixar com que me torne mais um.

Dirijo-me até o referido cidadão, sua feição suaviza e um leve sorriso brota dos seus lábios e uma frase que diz: - Professor Wagner, que bom vê-lo por aqui! Pensei que você não havia me reconhecido.

Ufa! Que alívio! Realmente a vida é feita de atitudes.

8 de maio de 2012



O suor e a lágrima
Carlos Heitor Cony

Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.

O texto acima foi publicado no jornal “Folha de São Paulo”, edição de 19/02/2001, e faz parte do livro “Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha”, Publifolhas – São Paulo, 2001, pág. 319, organização de Arthur Nestrovski.

28 de abril de 2012

Primeira crônica


Primeira crônica

Ao ver mais uma vez a notícia de que o Brasil se encontra entre os últimos em educação, vem a pergunta: O que é prioridade para o povo brasileiro? E o futebol para a nação!!!!

Crianças assistem às aulas em salas sem vidros ou telhas. ”Faltam verbas” diz alguém... O governo financia reformas em estádios de futebol.

“Aconteceu votação em plenário, o orçamento para educação recebe cortes”. “O Governo Federal decide disponibilizar mais verbas para financiamento da realização da copa do mundo.” “Não podemos fazer feio, o Brasil realizará uma copa Inesquecível”.

Inesquecível são as matérias televisivas de crianças que andam quilômetros e se amontoam em conduções que parecem mais sucatas, para chegarem até suas escolas. “A população brasileira chora a derrota de seu time”.

“Somos o pais das chuteiras”, disse certa vez um presidente. Muitos vivem abaixo do nível da pobreza. “o Brasil perde, em relação à educação, pra países subdesenvolvidos “. São notícias jornalísticas vinculadas na mídia.

Crianças não diferem filosofia de sociologia. E o futebol? Vai bem, somos “penta”. E a educação?A educação como será classificada?

“Educação que nada. Quero mesmo é levar meu filho ao estádio ver meu time do coração ganhar o campeonato. Livros? Pra que? Tome uma bola meu filho!”

“180 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção!” 

“Pai poço cumprar o engresso pra ver a celesão?”

“E salve a seleção!!!!!!!!!!”